Quinta-feira, Julho 9

Estrada






Assim ninguém pára
Seja noite, seja dia
A vagar por essa estrada
Longa e vazia.

Terça-feira, Julho 7

Quando eu morrer (Prece)

















Quando eu morrer não quero ninguém chorando ao meu lado. Já não existo, lembrem-se, sou passado.

Quando eu morrer distribúam meus pedaços àqueles necessitados, depois aqueçam as sobras e arremessem em qualquer lugar.

Quando eu morrer não permitirei que ninguém vá, mês a mês, visitar-me num canto que não escolhi, num canto que não aluguei.

Quando eu morrer esqueçam-me de vez. Por favor, dêem-me paz. Ao morrer, lembrem-se, não quero nada mais.

Quando eu morrer esqueçam o que fiz, esqueçam o que preguei e olvidem as rezas que rezei.

Festejem meu último suspiro. Festejem minha palidez. Festejem, por fim, o otário da vez.

Covarde





Ele me chama
Digo que não vou
Sou covarde
Sou miúda
Abasteço
Minha dor.

Segunda-feira, Julho 6

Ermo

















Olha ao seu redor
Não avista nada
Não vê ninguém
Não atraiu
Sequer alguém
Para extraí-la
Do lugar
Onde se abriga
Derribada
Na astuciosa solidão
D’um ser
Feito de abstração.

Olha ao seu redor
Ninguém por perto
Está só
Recolhida
Ao seu
Próprio deserto.

Olha ao seu redor
Não vê nada
Está cega
Perdeu o rumo
Da própria estrada.

Olha ao seu redor
Não há ninguém
Sente-se largada
Recorda
Fez de si
Seu próprio além.

Sábado, Julho 4

Apoio



Fumaça
Socorro
Bengala
Nada novo.
Assim, juro que morro.

Domingo, Junho 28

by Baudelaire

"Esta manhã ainda me maravilha a imagem viva e distante da terrível paisagem jamais contemplada por olhos mortais".

Isolação

















Isolação,
Companheira ardilosa
Amiga de plantão
Presente na minha vida
Freqüente no meu coração.

Guia-me com sua mão taluda
Virou pátria, virou rainha
Dias de folga
Ela não me propicia.

Afeiçoou-se a mim
Tornou-se meu apreso
Movimenta-se pela minha estrada
Pactuada, garantida e abastada.

Contumaz,
Fez-me sua afável cria
Acompanha-me pelo mundo
É ela quem me guia.

Hipocrisia
















Hipocrisia, praga encachaçada
Que à grande maioria
- Quase todos, eu diria –
Pela vida sentencia.

Hipocrisia,
Doença grandiosa
Com sua força
Tornou-nos miseráveis
Presunçosos e insaciáveis.

Desgraçadamente,
Não nos damos conta
De que para dessa miséria
Libertarmo-nos
Basta somente
Arredores minutarmos.

Prece de desesperado










Desunhada infindamente
Faz-se agora a deus recorrente.
Flinge,
Roga,
Clama e
Implora
Deposita seu pedido sem fé
Num deus que não quer.

Bom dia